terça-feira, 9 de junho de 2020


O Amor não tem sexo
Eu estava na sauna gay quando ouvi aquela voz agazelada de uma bicha dizendo: mulher estais aqui nesse paraíso. Olhando com desdém vi que era Patrícia Donato, uma bicha que conheci na minha adolescência. Período onde eu ainda circulava no mundo hétero e na noite eu ia pra badalada e efervescente “oneway”. Amava aqueles brilhos e histerias e pensava encontrei o meu lugar. É aqui que quero viver. Foi lá que conheci meu grande amor homossexual e nesse momento tive certeza sou gay e esse é meu mundo. Finalmente me defini e achei que todas as minhas dúvidas sobre mim e sobre a minha sexualidade foram sacramentadas, chega de dúvidas e incertezas. Pensei, sou gay, logo existo!
Vivi anos de minha vida sem dúvidas sobre isso. Fiquei com esse meu amor homossexual por 10 anos, naquela época gay não casava mas moramos juntos e dividíamos a vida e a cama. Mas como todo grande amor também teve seu fim. A essa altura do campeonato todos já sabiam que eu era gay, meus pais, toda minha família, vizinhos e colegas de trabalho. Era respeitado por todos os héteros, mas no mundo gay principalmente os gays solteiros a falta de respeito é sacramentada pelos deboches que fazemos uns com os outros. Nos tratávamos como bicha, mulher, a senhora, e tantas brincadeiras do gênero. Independente do lugar no mundo que você ocupe nos humilhamos e nos depreciamos o tempo todo.
Fiquei muito tempo solteiro e solto na gandaia mas tomando meus devidos cuidados de higiene apesar da aids/HIV controlado e com remédios eficazes no tratamento fazendo com que os infectados leve uma vida quase normal, eu ainda tenho medo de me contaminar e sexo pra mim só com segurança, sem camisinha não rola.
Fui me cansando dessa vida pregressa e naturalmente comecei a ficar mais em casa. Netflix, novelas, futebol. Regado a cerveja e tira-gosto dentro de casa. Era EU e EU e eu estava gostando dessa vida. Fui relaxando, ficando gordo e feio, já nem me reconhecia no espelho. Eu estava com uma aparência que dava dó. Aí pensei tenho que fazer alguma coisa ainda sou jovem não posso me abandonar nesse descaso todo comigo mesmo. Comprei um tênis. Fui numa sapataria num shopping bem caro da cidade e disse ao atendente, quero o melhor tênis que você tiver para caminhar e correr. E também o mais bonito. O cara olhou para mim e viu aquele balofo na sua frente e acho que pensou: esse tênis não vai nem sair da caixa.
Como sou determinado ao chegar em casa botei meu calção, uma camiseta surrada e meu par de tênis de última geração e fui caminhar. Chegando no Parque tentei logo correr, mas as pernas não obedeciam e o fôlego não me permitia tamanha audácia. Recuperei o fôlego e fui mais devagar comecei a caminhar e respirei com disciplina até que peguei o ritmo.
Virou um hábito e todos os dias eu repetia o ritual e ia ao Parque depois que chegava do trabalho.  Minha respiração melhorou, meu corpo foi perdendo as gordurinhas e eu fui ficando mais jovem e com um corpo mais definido, comecei a me sentir bonito novamente.
Até que um dia enquanto fazia meu alongamento no Parque ELA passou. Me deu um lindo sorriso e um boa tarde e pronto bastou isso!
Comecei a pensar nela o tempo todo e esperava ansioso o momento em que cruzávamos durante a caminhada. Fiquei obcecado em me tornar seu amigo, mas ELA parecia que estava sempre apressada e focada no exercício. Comecei mudando no trabalho fazia tudo com mais capricho e rapidez para sair na hora certa não poderia me atrasar na hora do Parque. Começamos a nos falar e marcar encontros nos fins de semana. Almoçávamos, jantávamos, íamos a praia, ao clube. Nas festas, nos bares. Assistíamos balé, shows, peças de teatro, filmes, jogos de futebol. Íamos a galerias de arte, museus, passeávamos nos Parques, passávamos horas conversando no telefone, no vídeo pelo zap, e fazíamos vídeo conferência só com nós dois. Até que um dia ao voltarmos de um jogo de futebol pegamos uma grande chuva no caminho e como estávamos de bicicleta ao chegarmos na casa dela, ELA me perguntou se eu não queria esperar a chuva passar pois estávamos ensopados. Aceitei o convite ELA disse toma um banho e veste essa roupa é larga para mim pode caber em você.
Enquanto tomávamos um café fiquei olhando para ELA e percebi que a amava e não poderia mais viver sem ELA. Nos casamos faz 5 anos e temos uma filha de 3 anos e agora ELA está gravida de nosso segundo filho. E eu a amo mais que tudo nessa vida.
Vá entender a humanidade!


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